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28/06/2007
Valor estético e valor moral


Sobre paixão e atração sexual

 

Jovem – Um amigo meu se apaixonou por uma mulher, e seu coração está totalmente tomado por ela. Ele passou a achar que ela é o próprio Universo. Esse estado durou um ano, mas o arrebatamento amoroso esfriou repentinamente, e ele passou a ter por ela um sentimento normal. Não passou a desgostar dela, mas, quando os pais recomendaram-lhe casar-se com outra moça, ele sentiu, naturalmente, que poderia aceitar essa união. Mas, que significa isso? Não seria uma situação em que, no âmbito mental, poderia ser censurado como alguém que violou a fidelidade?

 

Mestre – A paixão é semelhante a uma febre e não dura para sempre. Mesmo que ela acabe, não significa que a fidelidade mental foi violada. A febre acaba estabilizando-se um dia. Quem está apaixonado(a) sente desejo de servir incondicionalmente ao ser amado, dando até a vida a ele, mas torna-se extremamente egoísta e sigiloso(a) em relação a outras pessoas, considerando-as inimigas que invadem sua felicidade.

 

Jovem – Ultimamente, comecei a sentir atração sexual por muitas mulheres. Sinto amor, não só em relação a uma mulher, mas a todas as mulheres. Isso seria algo moralmente impuro?

 

Mestre – Isso se trata de um desejo do corpo carnal, não sendo algo que pode ser expresso como sendo amor. O corpo carnal possui apetite para se manter. Sem o processo de deixar descendentes, o corpo carnal não conseguirá dar continuidade a si, eternamente. Por isso, possui desejo sexual. O corpo carnal é uma existência espacial e, para que subsista eternamente na vertical e na horizontal o mais amplamente possível, é necessário gerar maior número possível de filhos. Por isso, o homem sente intenso amor sensual perante o corpo feminino. A mulher, mesmo que se relacione com grande número de homens, só consegue gerar um filho em dez meses, mas o homem tem a possibilidade de ter filhos a cada vez que troca de parceira. Por isso, o corpo masculino sente-se atraído por muitas mulheres, devido à necessidade da conservação da espécie. Entretanto, este é um desejo inerente ao corpo carnal, e não ao espírito. O corpo carnal é um instrumento. Portanto, se o homem serve exclusivamente aos desejos do corpo carnal, significa que está sendo usado pelo seu instrumento, e conclui-se que perdeu a autonomia do ser humano. O homem é espírito. O espírito regozija-se com a pureza e a sinceridade. O amor espiritual deve ser puro.

 

Ansiando por um mundo sem guerras

 

Jovem – Preciso concretizar um mundo ideal, isento de guerras. Senti isso profundamente ao vivenciar a tragédia da bomba atômica lançada em Hiroshima, mas será isso possível?

 

Mestre – A expansão do corpo físico provoca inevitavelmente colisões. Isto porque o corpo carnal vive no mundo visível das três dimensões. A expansão ilimitada de uma pessoa ou de um corpo conflita com a expansão de outras pessoas ou de outros corpos. Portanto, enquanto o homem se considera um corpo carnal, não conseguirá evitar os atritos. Se não ocorrer uma mudança no conceito do homem que o leve a se considerar um espírito, será impossível evitar as guerras deste mundo, sejam elas grandes ou pequenas. O espírito é uma existência que transcende o espaço tridimensional e, portanto, o seu progresso e o seu crescimento não se chocam com o progresso e o crescimento de outros espíritos. E, enquanto o ser humano continuar matando animais e se alimentando deles, não se concretizará a verdadeira paz neste mundo. Este é um mundo da circulação do carma. Enquanto existir a mentalidade que mata, o ser humano  será morto. O carma da destruição da vida gera o mesmo carma. O consumo da carne torna violenta a mente humana. As causas concretas das guerras são muitas, mas o que conduz à guerra são os carmas invisíveis da destruição das vidas efetuada pelos homens. Esta ação do carma pode ser considerada efeito do acúmulo da memória do ser humano, que veio matando os seres vivos, armazenada na camada profunda do subconsciente. Por isso, se evitarmos ao máximo ingerir carne dos animais, estaremos de acordo com o caminho que nos conduz à paz.

 

Jovem – Comer arroz e trigo não seria também destruição de vidas?

 

Mestre – Arroz e trigo não possuem alma em cada grão. Possuem apenas vida da espécie. Por isso, comer uma parte desses vegetais seria comparável ao ato de o ser humano cortar os cabelos e as unhas. Unhas e cabelos são formados por células vivas, mas neles não existe vida que sente dor. Ao cortá-los, o ser humano conseguirá viver de forma mais bela e pura. Tanto o arroz quanto o trigo, se ninguém colher seus grãos, eles cairão na terra e brotarão, passando a disputar nutrientes e, na próxima safra, nenhum grão germinará, causando a extinção da vida dessa espécie. Portanto, para não causar a extinção da espécie, é necessário que seja efetuada a plantação adequada dos grãos. Ou seja, produzir grãos em excesso e os oferecer aos homens, para que eles semeiem uma quantidade adequada, no momento certo, em intervalos regulares. Portanto, a própria vida do arroz e do trigo oferece uma parte dos grãos para a alimentação do ser humano, e outra parte, para que seja plantada. Quando nos alimentamos desses grãos, não estamos praticando alguma matança, mas, ao contrário, estamos vivificando a vida desses cereais. Em suma, ao ingerirmos vegetais, não estamos praticando matança. Alguém disse, há pouco, que sente-se atraído por muitas mulheres, mas a questão do desejo sexual também tem relação com os alimentos. Quem ingere alimentos pesados, tende a ter desejos sexuais intensos. Sakyamuni não permitiu que seus discípulos se alimentassem de carne porque, além de proibir a matança de seres vivos, tomou medidas para que eles não tivessem comportamento sexual impróprio.

 

Valor estético e valor moral

Jovem – Penso que não se pode separar nitidamente o valor estético do valor moral. Penso que a imagem de alguém que se aplica a favor do belo tem valor moral e é bela a imagem de alguém que se aplica em prol do bem moral. Que acha o senhor?

 

Mestre – O belo e o bem são duas faces que se manifestam da grandiosa Vida que é Deus. Por isso, a imagem de quem se dedica ao belo tem valor moral e, na imagem de quem se dedica à moralidade, há beleza. Mas, observando a face dividida em duas, há outra coisa. Hyakuzo Kurata, em sua coletânea de ensaios intitulada Seishi (meditação), aflige-se com o seguinte: “Quando um incêndio se aproximar da casa vizinha, um pintor deverá dar maior importância à sua obra ou ao ato de salvar os vizinhos?”. Ele diz: “Apagar o incêndio e salvar os vizinhos é um bem, mas, se precisar ficar apagando o incêndio eternamente, o pintor não conseguirá criar o belo”. Um quadro é belo, mas não um bem. Neste sentido, o bem e o belo pertencem a diferentes categorias. Oscar Wilde disse: “Até mesmo o senso estético das cores transcende o bem e o mal”. O julgamento do bem e do mal se realiza através do raciocínio prático, mas o julgamento do belo se realiza através do senso estético. Entretanto, considera-se bela a imagem de alguém que se esforça diligentemente em tudo que faz, quando observada objetivamente de longe, porque o belo é um prazer que se sente de uma certa distância. Produtos de utilidade prática são um bem, mas não o belo, porque oferecem um prazer apropriado à vivência. O belo nem sempre é algo indispensável, sendo um valor excedente, um ornamento. O ser humano pode viver sem ornamentos. Pode-se comer arroz, mesmo em uma tigela sem nenhum desenho. Mas é necessário ingerir alimentos. É necessário oferecer alimentos às pessoas. Oferecer o que é necessário ao ser humano é um bem. Por isso, o belo é um valor excedente. Há o seguinte ditado: “Bem alimentado, bem educado”. É um bem ter o sustento da vida. A boa educação significa belas atitudes, portanto, é possível viver sem ela. Mas é um valor que torna a vida agradável. Naturalmente, é mais agradável viver com o belo do que com o feio. Portanto, se faz parte do bem tornar a vida mais agradável, produzir obras de arte também é um bem. O ato de produzir é um bem (uma atitude ética), mas a arte em si é o belo (algo que proporciona prazer estético).

 

Jovem – Que se deve fazer primeiro: apagar o incêndio ou pintar? Na opinião do senhor, que deve ser feito primeiro?

 

Mestre – Isso é questão do estado mental da pessoa, e não é possível definir qual é o correto. De acordo com o estado mental da pessoa, o interesse em apagar o incêndio pesa mais em seu coração. E também, de acordo com o estado mental dela, a criação artística pesa mais. E ambos estão corretos, de acordo com a posição da pessoa. E também, define-se a prioridade de acordo com a intensidade do incêndio e o grau de importância da criação do belo. Portanto, não se pode definir indiscriminadamente qual é o correto, qual é o bem. A Seicho-No-Ie prega a tripla adequação: à pessoa, à hora e ao lugar. Quando ocorrer a devida adequação, tanto apagar primeiro o incêndio quanto pintar primeiro o quadro estarão corretos. Um mesmo ato pode ser correto se for feito um minuto antes, mas incorreto, um minuto depois. Há quem morra atropelado por um trem devido a uma diferença de 30 segundos.

 

Jovem – Entre alguém que vive de acordo com as regras da moral, apagando primeiro o fogo, e um artista plástico que não apaga o fogo por dar maior importância à criação do belo, quem possui estado espiritual mais elevado?

 

Mestre – Esses são elementos que não devem ser comparados, definindo qual é superior e qual é inferior. Mas, no caso de qual deles deve ocupar a posição superior como, por exemplo, num banquete, deve ficar em primeiro plano o lugar da pessoa que apaga o fogo para salvar as pessoas. Essa ordem dos assentos não foi criação minha. Segundo comunicações do mundo espiritual, o mundo do amor está numa esfera superior a dos cientistas, filósofos e artistas plásticos. No mundo espiritual, há uma esfera na qual se reúnem espíritos que se dedicam exclusivamente a pesquisas científicas, a criações literárias e de artes plásticas, sem se preocuparem absolutamente com a infelicidade alheia. Estão numa classe superior à da espécie de espíritos que buscam lucro e prazeres materiais; mas no ponto em que, apesar de buscarem valores espirituais, entregam-se àquilo de que gostam sem se preocupar com os outros, são de classe inferior. Aliás, a esfera na qual se reúnem espíritos que, levados pelo sentimento de que têm a missão de criar o belo para a felicidade de toda a humanidade, fazem pesquisas científicas ou se dedicam à arte como um ato de amor ao próximo, é uma esfera superior à daquela onde se reúnem espíritos que apenas criam o belo a seu bel-prazer.

 

Jovem – Como discernir que gostamos de uma determinada profissão, por ser essa a nossa missão ou porque é um dom que recebemos de Deus, e não porque sentimos interesse por ela por simples capricho momentâneo?

 

Mestre – No caso de a pessoa possuir mesmo talento musical e, também no plano da Imagem Verdadeira, o desabrochar do talento musical seja um dom natural recebido de Deus, ela demonstrará admiração especial pela música e, simultaneamente, essa preferência será de natureza perene. Por mais que se dedique à música, jamais se fartará. Entretanto, quando uma pessoa se dedica a algo que nada tem a ver com seu talento, pode se dedicar a isso com intensidade por uns momentos, mas, após certo tempo, acaba-se cansando. Sente interesse por novidades, por algo que é incomum, mas, quando isso deixa de ser novidade, perde o interesse. Por exemplo, no caso de aprender a dirigir um carro, inicialmente esforça-se com todo o entusiasmo, mas, ao passar a dirigir com facilidade e não sentir nenhuma dificuldade, acaba desistindo. Isso ocorre porque a pessoa não tem talento para ser motorista. Apenas aprendeu a dirigir para adquirir experiência. Em relação à fotografia também, inicialmente a pessoa se empenha seriamente em aprender a tirar fotos, mas, quando passa a tirar sempre boas fotos, perde o interesse. Significa que tal pessoa não possui talento para ser um fotógrafo e se interessou em tirar fotos somente para assim desenvolver uma parte ainda não desbravada da sua alma. Isso também é necessário para o desenvolvimento dessa alma, e não é, em absoluto, algo errado se entusiasmar temporariamente por algo que não é seu dom. Mas é muito importante descobrir o quanto antes o seu talento natural e concentrar a energia nisso.

 

Jovem – No Grande Seminário de Gifu, um participante que perdeu uma das pernas disse “Perdi uma perna, mas ganhei uma prótese. Esta prótese ortopédica é mais prática do que a perna de carne e osso, e não se cansa”. Esse indivíduo está agora escrevendo muitas poesias. Antes de pegar no sono, ele pratica a Meditação Shinsokan e ora pedindo a Deus que lhe inspire boas poesias. Assim, no meio da noite, como se estivesse sonhando, recebe inspiração de uma poesia e desperta. Então, anota isso e, na manhã seguinte, escreve uma poesia baseada nisso. Ultimamente, não há quem desconheça seu nome no círculo poético, e seu nome está sendo citado numa famosa revista de Tóquio, especializada em poesias. Com que mecanismo ocorre isso?

 

Mestre – A mente consciente se envolve com diversos fatos concretos, e sua atenção é dispersa, sendo difícil concentrar-se num determinado fato. Conseqüentemente, mesmo para captar as ondas mentais do mundo espiritual, muda constantemente o comprimento dessas ondas. Uma inspiração é geralmente a captação de ondas do mundo espiritual, mas como nesse mundo existem poetas e inventores, captando ondas deles, a pessoa conseguirá criar boas poesias, como também boas invenções. É preciso concentrar a mente para sintonizar com essas ondas. A oração tem a função de efetuar essa concentração mental. Quando a pessoa fica completamente absorta em alguma invenção ou pesquisa, repentinamente, vem-lhe uma inspiração de algum lugar e consegue efetuar uma invenção ou captar uma boa teoria científica. Concentrando o pensamento, estará evocando espíritos do mundo espiritual. Mas, mesmo evocando esses espíritos, se o consciente estiver vendo de modo excessivamente nítido os fatos concretos, não poderá ouvir claramente a vibração do mundo espiritual, por ser ela uma voz bem tênue. Portanto, após evocar um ser espiritual através da concentração mental (ou da oração), é melhor não ter nenhum pensamento consciente, mantendo-se receptivo(a), num estado de anulação do ego. Por isso, quando a mente consciente adormece logo após a oração efetuada ao se deitar, a pessoa está num estado propício para receber com maior perfeição as vibrações do mundo espiritual.

 

(de Shinri, vol. 6, pp. 328-340)

 


Revista Mundo Ideal - Junho / 2007